A Conquista da Etiópia não é um livro da coleção Renes Segunda Guerra Mundial por que a invasão da Etiópia se dá antes de 1939, porém faz parte da coleção História Ilustrada do Século de Violência, também da Renes, e esse livro é importante por que nele é retratado o cenário pré-guerra que nesse início é tão importante. É com esse livro que eu dou partida na história da Segunda Guerra Mundial mesmo antes dela se iniciar.
A primeira brutalidade
Introdução de Barrie Pit
As consequências da campanha de Mussolini na Etiópia foram muito mais importantes do que a mera anexação de um país por outro. Elas afetariam a vida de milhões de pessoas, muitas das quais, provavelmente, nunca ouviram falar desse país do nordeste africano, governado por Hailé Selasié, seu imperador - pois não há dúvidas de que esta tentativa de expansão colonial feita pelos italianos foi uma das causas da Segunda Guerra Mundial.
Nascida dos sonhos de Mussolini de criação de um novo império romano e do desejo de vingar-se da derrota da Itália para os etíopes em Adowa*, em 1896, a campanha constituiu-se em agressão do tipo mais flagrante, na qual somente desculpas esfarrapadas foram apresentadas para a mobilização do exército italiano e, depois, para a invasão da fronteira etíope.
Nascida dos sonhos de Mussolini de criação de um novo império romano e do desejo de vingar-se da derrota da Itália para os etíopes em Adowa*, em 1896, a campanha constituiu-se em agressão do tipo mais flagrante, na qual somente desculpas esfarrapadas foram apresentadas para a mobilização do exército italiano e, depois, para a invasão da fronteira etíope.
A Liga das Nações, ou Sociedade das Nações, criado em 1919 em Versalhes foi o orgão para o qual Hailé Selassié apelou implorando ajuda, e este não quis tomar providências militares diretas para ajudar a luta da Etiópia por sua liberdade. Os estados-membros, guiados pelo egoísmo, concordaram apenas em impor pequenas sanções econômicas a Itália, deixando de restringir as exportações de dois produtos que poderiam ter tido o mesmo efeito sobre sua conduta: o embargo do petróleo e do carvão poderia muito bem ter impossibilitado Mussolini de prosseguir em sua política de expansão territórial pela força das armas.
O irônico é que as sanções impostas pela Liga, embora não fossem suficientemente amplas, para afetar a eficiência militar da Itália, serviram para criar certo ressentimento e aliená-la da Grã-Bretanha e da França. Assim é que, sozinho e sem amigos, Mussolini tornou-se receptivo às sondagens do ditador alemão e formou com ele a aliança do Eixo.
Como para escarnecer ainda mais da tíbia oposição da Liga à sua visão de um império, Mussolini encorajou seus líderes militares a travar uma campanha de grande brutalidade na Etiópia, usando todas as armas de guerra moderna, inclusive gás venenoso, contra nativos armados quase que apenas de fuzis. Aviões atacaram aldeias e cidades indiscriminadamente, lançando bombas e metralhando civis e soldados.
Não tendo a Liga das Nações, percebido a provocação, e nem tomado providências diretas contra a agressão do ditador italiano, isso sem dúvida enfraqueceu o organismo como força em assuntos mundiais. Ela não podia mais atuar como órgão de repressão contra os que desejavam expandir sua influência e fronteiras territoriais por meios militares, depois que, desafiada, se mostrou incapaz de agir.
Haviam outros na Europa que sonhavam com impérios, outros que nutriam lembranças amargas de derrotas antigas e desejos de vingança e a relutância das grandes potências na Liga, em fazer mais do que condenar a ação de um país que ignorava, com desprezo, os próprios principios básicos da Liga, encorajou esses homens a seguir o mesmo rumo. Antes de o exército etíope cessar a resistência aos italianos, em 7 de março de 1936, um sábado, Adolf Hitler já ocupara a zona desmilitarizada da Renânia - criada pelo tratado de Versalhes - *¹Uma força militar alemã relativamente pequena (quatro brigadas, segundo Alfred Jodl, em Nuremberg) cruzou o Reno entrando na zona desmilitarizada. Às 10 da manhã, Konstantin Von Neurath, Ministro do Exterior, convoca os embaixadores da França, Inglaterra e Itália notificando-os sobre a invasão entregando-lhes uma nota formal denunciando o Tratado de Locarno, subscrito livremente pela Alemanha em 1925, onde por exigência da França, aquela seria uma área desmilitarizada, e os países da Europa acharam mais fácil aceitar a palavra de Hitler, de que suas ambições territoriais estavam satisfeitas, do que tomar a inconfortável decisão de agir de maneira mais direta.
Fonte:
*¹ http://hospedagem.infolink.com.br/nostradamus/
Na Espanha, o General Franco lutava por criar outra ditadura fascista, e pediu a ajuda do Duce. Os italianos foram enviados como voluntários para ajudar a causa fascista, sendo seguidos pelos homens mandados por Hitler. Este também usou a guerra civil espanhola como campo de provas para a luftwaffe, então em desenvolvimento, afiando o gume da arma que ele estava preparando para usar conta uma Europa complacente - o poderio aéreo apoiando blindados e tropas de assalto, a Blitzkrieg.
*¹ http://hospedagem.infolink.com.br/nostradamus/
Na Espanha, o General Franco lutava por criar outra ditadura fascista, e pediu a ajuda do Duce. Os italianos foram enviados como voluntários para ajudar a causa fascista, sendo seguidos pelos homens mandados por Hitler. Este também usou a guerra civil espanhola como campo de provas para a luftwaffe, então em desenvolvimento, afiando o gume da arma que ele estava preparando para usar conta uma Europa complacente - o poderio aéreo apoiando blindados e tropas de assalto, a Blitzkrieg.
O sucesso das armas italianas na Etiópia levou Mussolini a crer que podia ganhar facilmente qualquer guerra que quisesse empreender. Foi isso, sem falar na adulação do povo italiano, que lhe deu amplo apoio, uma vez terminada satisfatoriamente a guerra contra a Etiópia, que o estimulou a tentar a política desastrosa que afinal o levou, de fracasso em fracasso, à derrota ignominiosa e à rendição sem honra.
A.J. Barkeer faz um relato amplo da campanha e do seu resultado imediato, desde o incidente em Wal Wal, em dezembro de 1934, que Mussolini usou como desculpa para a invasão, até depois da remoção de Graziani do cargo de Vice-Rei da Etiópia em 1937. A narrativa é o retrato de uma luta cruel, de batalhas selvagens nas quais os etíopes sofreram três vezes mais baixas do que as inflingidas às forças italianas; do uso implacável do poderio aéreo e do emprego generalizado de gás venenoso. Os anos de ocupação, após o fim da guerra, começaram com um período de feroz opressão, impostos por Graziani, que logo alienou a simpatia pelos italianos que pudesse existir em certos setores da população. Quando o seu sucessor, o Duque de Aosta veio ocupar aquele cargo, era tarde demais para corrigir os erros.
A.J. Barkeer faz um relato amplo da campanha e do seu resultado imediato, desde o incidente em Wal Wal, em dezembro de 1934, que Mussolini usou como desculpa para a invasão, até depois da remoção de Graziani do cargo de Vice-Rei da Etiópia em 1937. A narrativa é o retrato de uma luta cruel, de batalhas selvagens nas quais os etíopes sofreram três vezes mais baixas do que as inflingidas às forças italianas; do uso implacável do poderio aéreo e do emprego generalizado de gás venenoso. Os anos de ocupação, após o fim da guerra, começaram com um período de feroz opressão, impostos por Graziani, que logo alienou a simpatia pelos italianos que pudesse existir em certos setores da população. Quando o seu sucessor, o Duque de Aosta veio ocupar aquele cargo, era tarde demais para corrigir os erros.
A nação italiana pagou muito caro pela tentativa de criar um império romano tardio e pela aprovação do fascismo. Certo que será passível de acusação séria, o credo político que sob seu regime a nação se comporte de modo bárbaro, desumano estranho ao seu caráter nacional
"O imperialismo é a lei eterna e imutável da vida. Levando-se em conta, ele é somente a necessidade, o desejo e a vontade de expandir que cada indivíduo e cada povo ativo e vital trazem consigo" Benito Mussolini janeiro de 1919.
Cercado dos monumentos das glórias da antiga Roma, o Palazzo de Venezia ergue-se no coração de Roma. Construído no estilos dos castelos medievais do século XV, o prédio domina a grande Piazza Venezia a sua frente. Ali num ambiente histórico e grandioso, Benito Mussolini, o Duce da Itália, tinha seu Q-G, com seu escritório na sala de mappamondo. E era ali que o moderno César sonhava com um novo império romano. No começo esse império seria colonial e criado por meios de conquistas, pois só assim seria ele justificado aos olhos do mundo. O Duce ponderava que fora este o padrão adotado por todas as poderosas nações do passado. Assim, suas ações seriam moralmente justificadas e seu resultado vingaria a injustiça perpetrada em Versalhes, onde - embora do lado vencedor - à Itália foi negada a sua parte nos despojos. Isto acabaria com o sentimento de frustração que os italiano ainda nutriam e também daria um escoadouro necessário à crescente população italiana. Por último, ele traria a glória e reconhecimento atônito do mundo.
Para melhor vizualização clique na imagem
Decidido a criar um império para a Itália, era inevitável que Mussolini voltasse os olhos para a África e se fixasse na Etiópia, único país africano que se conservava livre do domínio branco. Era uma país imenso quase impenetrável, pela ausência de rodovias e ferrovias, sem acesso ao mar, exceto pela única ferrovia que ligava Adis Abeba, a capital, ao porto de Djibouti na somália francesa. Um país de enormes extensões de desertos tórridos e áridos, de planaltos pedregosos alternados com terras verdes e luxuriantes; onde havia leões, leopardos, hienas, linces e lobos, de cujos grandes depósitos minerais muito se falava, mas pouco se sabia, um país cujas exportações principais eram o café e peles. Mas a Etiópia era o objetivo lógico das ambições imperialistas de Mussolini. Ela fazia fronteira com as colônias italianas da Eritréia, no norte e da Somália, a sudeste, além disso, há décadas era reconhecida pelas potências colonialistas européias como estando situada na esfera de influência italiana. Ademais, havia uma conta que os italianos estavam por acertar desde 1896.
Para melhor vizualização clique na imagem
Quando Menelik se tornou Rei dos Reis, em 3 de novembro de 1889, ou Negus Negasti em amárico, língua etíope, ele assinou em 2 de maio de 1889 um tratado com a Itália chamado de tratado de Ucciali, aonde a Etíopia tornava-se um protetorado da Itália, Menelik não demorou a romper o tratado alegando erros de tradução nos termos do tratado em italiano, os etíopes acabaram atacando as tropas italianas estacionadas em solo etíope anexado pela Itália. Na resultante Batalha de Adowa, ou Aduá, os italianos foram derrotados por um exército nativo oito vezes maior em efetivos; e perpetraram as mais bárbaras atrocidades contra os prisioneiros italianos.
Apesar de ocorrida em 1896, ainda hoje a Batalha de Adwa, é muito presente na cultura Etíope, sobre tudo no Reggae, em 2012 o músico etíope Teddy Afro, publicou um clipe da sua musica Menelik, aonde é reencenada a Batalha de Adwa, o clipe já ultrapassou a barreira de 1 milhão de visualizações, no final do clipe aparece uma frase escrito em amárico "Para se definir agora, você precisa olhar para o seu passado", aparecem representados no clipe, o Rei Menelik, e sua esposa Taitu Bitul
clique para assistir
![]() |
Quando criança, Mussolini nutria o ressentimento nacional e, como ditador, tinha os meios para vingar-se. Ele assinou tratados com a Grã-Bretanha e a França, prometendo preservar o status quo na Abissínia e definindo a esfera de influência de cada país. Com a Abissínia ele assinou um tratado - um pacto de "Amizade, Conciliação e Arbitramento" - de dois anos de duração. Mas tratados não eram freios para suas ações. Ele estava sempre pronto a celebrar acordos com qualquer país disposto a assinar pactos de amizade, de comércio ou de segurança mútua, porque isso acentuava a importância da Itália no concerto das nações. Não que Mussolini considerasse quaisquer desses acordos como obrigatórios: ele dizia com frequência que os tratados não eram "eternos", mas podiam ser "revistos" - o que na opnião do Duce, significava que eram sujeitos a mudanças, incluindo a total violação, se isto lhe servisse. A lembrança da derrota em Adowa era mais duradoura e obrigatória do que qualquer cláusula de tratado "A grande conta aberta em 1896" declarou Mussolini em 1935, "tem de ser ajustada a qualquer preço". Então seu sonho romano se tornaria realidade.
Mussolini deve ter ponderado sobre outras considerações: sua determinação em causar na história uma impressão mais profunda do que qualquer outro grande italiano antes dele; sua crença de que um império poderia realmente mostrar-se economicamente vantajoso, sobretudo porque a depressão econômica mundial começava a ameaçar a precária economia da Itália, e juntamente com o valor artificial e forçado da lira - provocara uma queda no comércio exterior; e o fato de que suas proezas propagandísticas para ocupar o povo italiano e manter os fascistas alegremente ocupados se haviam esgotado. Seu último grande desempenho no palco fascista fora a reconciliação do partido com o Vaticano, na assinatura em 11 de fevereiro de 1929, do Tratado de São João Latrão, aonde a Itália formaliza a existência do Estado do Vaticano, como estado soberano, neutro e inviolável, sob a autoridade do Papa na época Pio XI.
Mussolini no papel de criador de impérios, perante o mundo, também poderia incluir o de portador da verdadeira fé para as tribos etiópes pertencentes a Igreja Copta. E o Duce supôs acertadamente, que isso agradaria ao Vaticano e obteria, se não sua benção, pelo menos o seu apoio. Assim no começo dos anos 30, Mussolini falava de paz e se preparava para a guerra.
No espaço de três anos, o problema colonial passou a ser a única preocupação de Mussolini. Normalmente, ele só via um lado de qualquer questão e deixou que a campanha colonial obscurecesse as dificuldades na Europa, a ascensão de Adolf Hitler e a ameaça nazista para o mundo, as vantagens que a Itália poderia ter obtido da Grã-Bretanha e da França, e a promessa de a Itália obedecer às decisões da Liga das Nações. Aparentemente, ele se esquecera das sérias consequências da Guerra da Líbia de 1911, que ele próprio condenara. Tampouco lembrara do despreparo do exército e da nação quando a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial. Em sua teimosia unilateral, ele parece não ter se preocupado com os enormes custos de uma prolongada e duvidosa campanha colonial a milhares de quilômetros de distância da Itália e parece que não percebeu - ou não parou para pensar - que um colônia é um investimento a longo prazo, cujos dividendos demoram. O Duce tomara uma decisão e não iria mudá-la.
Seria difícil determinar com precisão a data em que o Duce pensou pela primeira vez na consquista da Etiópia. Pelas provas disponíveis, a maioria dos historiadores concorda de que foi por volta de 1932. Mas há razão para crer que ele já havia amadurecendo a idéia desde 1925.
A alternativa da expansão colonizadora naquele areal que era a Somália Italiana, nunca foi examinada a sério, e em uma visita a Trípoli feita em 1926, logo tambem convenceu Mussolini que podia se ignorar a outra colônia igualmente e desgraçadamente pobre.
Daí por diante, aos olhos dos italianos a Etiópia era a única vítima e Mussolini começou a sondar discretamente o clima diplomático na Europa enquanto se preparava para atacar. Nesse meio tempo, agentes italianos na África Oriental empenhavam-se numa campanha clandestina na Etiópia para corromper e conquistar alguns dos governantes e tribos dissidentes do frouxo império do Imperador Hailé Selassié. Esses homens trabalharam bem, e quando a guerra começou praticamente um terço do exército etíope foi paralisado. Rases e notáveis que tinham algum ressentimento contra o imperador penderam para o lado contrário, para não causar dificuldades aos italianos.
No começo de 1932 Mussolini chamou o idoso General Emilio de Bono, um dos seus leais e dedicados seguidores, ao Palazzo Venezia. O Duce pediu-lhe que fosse a Eritréia para ver "como estavam as coisas". Embora a missão passasse despercebida na Europa, seu propósito logo se tornou evidente. Tomara-se a "decisão irrevogável" e Mussolini estava fazendo planos para a invasão, que mais tarde tentou a todos convencer que não fora premeditada.

Em setembro de 32, o rei Vitório Emanuel fez uma visita oficial à "primeira colônia", percorreu seus campos de batalha e mostrou-se "profundamente comovido com a homenagem dos veteranos soldados eritreus incapacitados, que haviam lutado sob a bandeira italiana em Adowa". Também em 1932 o alto comando italiano revisou o projeto OME - o plano defensivo / ofensivo para a Eritréia, no caso de guerra. Também nessa época, Mussolini falara sobre seu "grande desígnio" a vários membros da hierarquia fascista e a nova começou a espalhar-se. O Conde Dino Grandi, embaixador da Itália junto à Corte de St. James, chegou mesmo a confidenciar o fato a Sir. John Simon - talvez para descobrir os pontos de vista da Grã-Bretanha sobre o assunto. Um ano depois, De Bono, com 68 anos de idade, foi informado de que poderia considerar-se comandante-chefe das próximas "operações". Ainda havia dois anos de espera, mas Mussolini já tinha um plano de campanha e um comandante-chefe para executá-lo.
Mussolini cumpriu a palavra. A 8 de abril, o primeiro batalhão da Gavinana desembarcou em Massawa, e durante os meses seguintes, 5 divisões de exército e 5 divisões de camisas pretas chegaram a África Oriental pelo Canal de Suez. Uma divisão e alguns batalhões de camisas pretas foram entregues ao General Graziani, Comandante das Forças na Somália Italiana, mas a principal concentração de soldados, deu-se na Eritreia. Essa primeira força expedicionária compreendia mais de 200.000 soldados e 7.000 oficiais, 6.000 metralhadoras, 700 peças de artilharia, 150 tanques e 150 aviões. A avalanche de tropas para a África atingiu o ponto culminante em setembro, quando o General Baistrocchi, Subsecretário da Guerra, informou ao Senado que só de Nápoles 100.000 homens, 1.000.000 de toneladas de suprimentos e munição, 200 canhões, 6.000 mulas e 2.300 veículos a motor haviam sido enviados para além mar. Confrontado com esse espantoso fluxo de homens e materiais, o General De Bono foi obrigado a pedir ao Duce, uma força de trabalho de 10.000 homens (o número não demoraria a subir para 50.000) para melhorar o porto de Massawa, recapear a estrada desde o porto até a capital da Eritreia, Asmara, e construir outras estradas e acomodações para o imenso exército que estava sendo concentrado. O pedido do general agradou a vários secretários provinciais, que desejavam livrar suas províncias, de uma vez por todas, dos desempregados crônicos, mas quando as primeira turmas chegaram, De Bono não ficou nada satisfeito: "Ele mandou qualquer um", disse. Mas seu Diretor de Intendência, Dall'Ora, enfrentou com brilhantismo o complexo problema de aprovisionamento, transporte e acomodações, e a 2 de outubro de 1935, o palco estava preparado para a invasão. Do seu Q-G, no centro de Asmara, cujas as ruas estavam entupidas de soldados e materiais De Bono deu suas ultimas instruções*
*Ao todo participaram da campanha da Abissínia 7 divisões do exército: Sabanda, Gavinana, Gran Sasso, Assieta, Sila, Cosseria, Peloritana; uma alpina (Pusteria), 6 divisões de camisas pretas. Ao norte participou o Corpo do Exército Indígena (Primeira e Segunda Divisões Eritreia, e ao sul o Corpo Indígena da Somália e a Divisão Líbia. A Régia Aeronáutica compreendia na frente norte uma Brigada de Bombardeio (3 esquadrilhas), uma esquadrilha de reconhecimento, um Grupo Autônomo de Bombardeio, um Grupo Misto de Reconhecimento Estratégico e de Caça e uma seção Hidrovolante. Na Somália havia uma esquadrilha de Bombardeio, um Grupo de Reconhecimento e Caça e um Autônomo de Bombardeio. Ao todo combateram, 15 mil oficiais e 400 mil praças, das quais 86.700 indígenas (A.S.C)

Em setembro de 32, o rei Vitório Emanuel fez uma visita oficial à "primeira colônia", percorreu seus campos de batalha e mostrou-se "profundamente comovido com a homenagem dos veteranos soldados eritreus incapacitados, que haviam lutado sob a bandeira italiana em Adowa". Também em 1932 o alto comando italiano revisou o projeto OME - o plano defensivo / ofensivo para a Eritréia, no caso de guerra. Também nessa época, Mussolini falara sobre seu "grande desígnio" a vários membros da hierarquia fascista e a nova começou a espalhar-se. O Conde Dino Grandi, embaixador da Itália junto à Corte de St. James, chegou mesmo a confidenciar o fato a Sir. John Simon - talvez para descobrir os pontos de vista da Grã-Bretanha sobre o assunto. Um ano depois, De Bono, com 68 anos de idade, foi informado de que poderia considerar-se comandante-chefe das próximas "operações". Ainda havia dois anos de espera, mas Mussolini já tinha um plano de campanha e um comandante-chefe para executá-lo.
A decisão que se pode considerar como o ponto definitivo foi tomada em dezembro de 1934, quando um incidente ocorrido em Wal Wal deu a Mussolini o buscado pretexto para a mobilização.
Wal Wal é uma aguada no deserto, situada próximo do que era até então a fronteira da Somália Italiana com a Etiópia. Segundo todos os mapas da época, ela ficava bem dentro da Etiópia, mas as fronteiras da colônia italiana como o território de Selassié não tinham sido adequadamente delineadas. Por motivos que nunca foram determinados com clareza, houve uma escaramuça entre a guarnição italiana de soldados somalis que estavam a serviço do Duce e uma força de etíopes atacaram os somalis com metralhadoras; segundo a versão etíope, os italianos apoiados por dois tanques e três aviões, os atacaram. O som dos disparos em torno dos poços mal tinham silenciado quando Mussolini começou a exigir desculpas e reparações. Apenas uma semana depois, o Duce mandou De Bono para a Etiópia como Alto Comissário - título este substituído em março por um mais importante e provocador: Comandante-Chefe do Exército Italiano na África.
Ainda que os incidentes fronteiriços fossem muito comuns nos territórios coloniais, ficou bem claro que Mussolini aproveitara o sucedido em Wal Wal para se preparar abertamente para a guerra. As autoridades coloniais britânicas e francesas em geral cuidavam de casos semelhantes com um tenente e alguns soldados nativos e o mundo raramente ouvia falar deles. Mas o Duce decidira que Wal Wal seria o casus belli, de modo que a imprensa italiana recebeu ordens de destacá-lo em manchete - apresentando o incidente como uma agressão deliberada e provocadora por parte da Etiópia, um ato tão grave que não podia ser tolerado. Um mês depois, a Comissão de Arbitramento nomeada pela Liga das Nações foi obrigada a admitir que, após intensas e extremas investigações, não podia decidir sobre o culpado pelo incidente. Portanto, a pergunta sobre quem provocara a luta permanecia sem resposta, como também se duvidava que a Itália tivesse qualquer direito legítimo de permanecer em Wal Wal.
Entretanto, Mussolini não estava interessado em sutilezas técnicas ou jurídicas; estava, isto sim, empenhadíssimo na possibilidade de conquista da Etiópia. Ela não só daria a Itália, novo escoadouro, para suas exportações, que eram cada vez menores, e uma solução parcial para seu crítico problema de desemprego, enviando para os vastos planaltos de Amharam grande parte da força de trabalho supérflua, como também daria ao Duce o que ele queria - a guerra, para provar a virilidade romana do seu povo e mostrar ao mundo que o regime fascista era fonte de sucesso material. Num discurso pronunciado em Bolonha alguns meses antes, ele se vangloriara de que a Itália estava se"... tornando nação militar... e para completar sua belicosidade..."
O imperador Hailé Selassié protestou junto a Liga das Nações. Assim fazendo ele deu um passo que rompeu toda a tradição das relações entre povos europeus e africanos. Mas isso não deteve Mussolini. A 5 e 11 de novembro de 1935 ordenou ele a mobilização de duas divisões de exército, a Gavinana e a Peloritana, e quando o Duce recebeu uma carta, datada de 13 de fevereiro, de De Bono, informando-lhe que "... no momento, o Negusa Negast está ordenando orações e jejum demais para nos dar razões de pensar que ele deseja atacar-nos..." ele mostrou todo o desprezo que sentia pela Liga da Nações, respondendo "Se o Negus não pretende atacar-nos, então teremos que tomar a iniciativa". Em carta que depois dirigiu a seu comandante chefe, ele escreveu: "O senhor pede três divisões até o fim de outubro; pretendo enviar-lhe 10, repito, 10: 5 divisões do exército regular, 5 formações de camisas pretas. Por nos faltar alguns milhares de homens, perdemos a luta em Adowa. Nunca mais cometeremos o mesmo erro. Estou disposto a pecar por excesso, nunca por escassez".
Wal Wal é uma aguada no deserto, situada próximo do que era até então a fronteira da Somália Italiana com a Etiópia. Segundo todos os mapas da época, ela ficava bem dentro da Etiópia, mas as fronteiras da colônia italiana como o território de Selassié não tinham sido adequadamente delineadas. Por motivos que nunca foram determinados com clareza, houve uma escaramuça entre a guarnição italiana de soldados somalis que estavam a serviço do Duce e uma força de etíopes atacaram os somalis com metralhadoras; segundo a versão etíope, os italianos apoiados por dois tanques e três aviões, os atacaram. O som dos disparos em torno dos poços mal tinham silenciado quando Mussolini começou a exigir desculpas e reparações. Apenas uma semana depois, o Duce mandou De Bono para a Etiópia como Alto Comissário - título este substituído em março por um mais importante e provocador: Comandante-Chefe do Exército Italiano na África.
Ainda que os incidentes fronteiriços fossem muito comuns nos territórios coloniais, ficou bem claro que Mussolini aproveitara o sucedido em Wal Wal para se preparar abertamente para a guerra. As autoridades coloniais britânicas e francesas em geral cuidavam de casos semelhantes com um tenente e alguns soldados nativos e o mundo raramente ouvia falar deles. Mas o Duce decidira que Wal Wal seria o casus belli, de modo que a imprensa italiana recebeu ordens de destacá-lo em manchete - apresentando o incidente como uma agressão deliberada e provocadora por parte da Etiópia, um ato tão grave que não podia ser tolerado. Um mês depois, a Comissão de Arbitramento nomeada pela Liga das Nações foi obrigada a admitir que, após intensas e extremas investigações, não podia decidir sobre o culpado pelo incidente. Portanto, a pergunta sobre quem provocara a luta permanecia sem resposta, como também se duvidava que a Itália tivesse qualquer direito legítimo de permanecer em Wal Wal.
Entretanto, Mussolini não estava interessado em sutilezas técnicas ou jurídicas; estava, isto sim, empenhadíssimo na possibilidade de conquista da Etiópia. Ela não só daria a Itália, novo escoadouro, para suas exportações, que eram cada vez menores, e uma solução parcial para seu crítico problema de desemprego, enviando para os vastos planaltos de Amharam grande parte da força de trabalho supérflua, como também daria ao Duce o que ele queria - a guerra, para provar a virilidade romana do seu povo e mostrar ao mundo que o regime fascista era fonte de sucesso material. Num discurso pronunciado em Bolonha alguns meses antes, ele se vangloriara de que a Itália estava se"... tornando nação militar... e para completar sua belicosidade..."
Região de AMARA, cuja capital é Bahir Dar, nessa
região encontra-se também o ponto mais alto do país
Ras Dashan
O imperador Hailé Selassié protestou junto a Liga das Nações. Assim fazendo ele deu um passo que rompeu toda a tradição das relações entre povos europeus e africanos. Mas isso não deteve Mussolini. A 5 e 11 de novembro de 1935 ordenou ele a mobilização de duas divisões de exército, a Gavinana e a Peloritana, e quando o Duce recebeu uma carta, datada de 13 de fevereiro, de De Bono, informando-lhe que "... no momento, o Negusa Negast está ordenando orações e jejum demais para nos dar razões de pensar que ele deseja atacar-nos..." ele mostrou todo o desprezo que sentia pela Liga da Nações, respondendo "Se o Negus não pretende atacar-nos, então teremos que tomar a iniciativa". Em carta que depois dirigiu a seu comandante chefe, ele escreveu: "O senhor pede três divisões até o fim de outubro; pretendo enviar-lhe 10, repito, 10: 5 divisões do exército regular, 5 formações de camisas pretas. Por nos faltar alguns milhares de homens, perdemos a luta em Adowa. Nunca mais cometeremos o mesmo erro. Estou disposto a pecar por excesso, nunca por escassez".
![]() |
| Os chefes feudais da Etiópia unem-se em apoio ao Imperador, que mantém sua fé patética na Liga das Nações - Setembro de 1935 |
Mussolini cumpriu a palavra. A 8 de abril, o primeiro batalhão da Gavinana desembarcou em Massawa, e durante os meses seguintes, 5 divisões de exército e 5 divisões de camisas pretas chegaram a África Oriental pelo Canal de Suez. Uma divisão e alguns batalhões de camisas pretas foram entregues ao General Graziani, Comandante das Forças na Somália Italiana, mas a principal concentração de soldados, deu-se na Eritreia. Essa primeira força expedicionária compreendia mais de 200.000 soldados e 7.000 oficiais, 6.000 metralhadoras, 700 peças de artilharia, 150 tanques e 150 aviões. A avalanche de tropas para a África atingiu o ponto culminante em setembro, quando o General Baistrocchi, Subsecretário da Guerra, informou ao Senado que só de Nápoles 100.000 homens, 1.000.000 de toneladas de suprimentos e munição, 200 canhões, 6.000 mulas e 2.300 veículos a motor haviam sido enviados para além mar. Confrontado com esse espantoso fluxo de homens e materiais, o General De Bono foi obrigado a pedir ao Duce, uma força de trabalho de 10.000 homens (o número não demoraria a subir para 50.000) para melhorar o porto de Massawa, recapear a estrada desde o porto até a capital da Eritreia, Asmara, e construir outras estradas e acomodações para o imenso exército que estava sendo concentrado. O pedido do general agradou a vários secretários provinciais, que desejavam livrar suas províncias, de uma vez por todas, dos desempregados crônicos, mas quando as primeira turmas chegaram, De Bono não ficou nada satisfeito: "Ele mandou qualquer um", disse. Mas seu Diretor de Intendência, Dall'Ora, enfrentou com brilhantismo o complexo problema de aprovisionamento, transporte e acomodações, e a 2 de outubro de 1935, o palco estava preparado para a invasão. Do seu Q-G, no centro de Asmara, cujas as ruas estavam entupidas de soldados e materiais De Bono deu suas ultimas instruções*
*Ao todo participaram da campanha da Abissínia 7 divisões do exército: Sabanda, Gavinana, Gran Sasso, Assieta, Sila, Cosseria, Peloritana; uma alpina (Pusteria), 6 divisões de camisas pretas. Ao norte participou o Corpo do Exército Indígena (Primeira e Segunda Divisões Eritreia, e ao sul o Corpo Indígena da Somália e a Divisão Líbia. A Régia Aeronáutica compreendia na frente norte uma Brigada de Bombardeio (3 esquadrilhas), uma esquadrilha de reconhecimento, um Grupo Autônomo de Bombardeio, um Grupo Misto de Reconhecimento Estratégico e de Caça e uma seção Hidrovolante. Na Somália havia uma esquadrilha de Bombardeio, um Grupo de Reconhecimento e Caça e um Autônomo de Bombardeio. Ao todo combateram, 15 mil oficiais e 400 mil praças, das quais 86.700 indígenas (A.S.C)

Cinco dias antes ele recebera o seguinte telegrama peremptório do Duce: "Ordeno-lhe que ataque ao amanhecer do dia 3, repito, 3 de outubro" De Bono planejara atacar a 5 de outubro, mas servidor leal, obedeceu sem hesitar.
Na Eritreia e na Somália Italiana, todos os preparativos estavam terminados e Mussolini podia muito bem congratular-se pela rapidez e eficiência com que a força expedicionária fora organizada. Mas o Duce estava preocupadíssimo com repercussão do acontecimento na Europa. Durante vários meses ele estivera convencido de que o tratado assinado em Roma por Laval, a 7 de janeiro de 1935, eliminara todos os obstáculos que poderia encontrar no caminho. Mas ele se esquecera de levar em conta a Grã-Bretanha. A princípio, parecia que o governo britânico, então preparando-se para uma eleição, estava disposto a deixar que as coisas seguissem seu curso natural. Anthony Eden (Lorde Avon), como Ministro dos Assuntos da Liga das Nações, era então o símbolo do interesse da Grã-Bretanha pelos novos princípios do internacionalismo e da segurança coletiva através da Liga. No final de junho, Eden visitou Mussolini e propôs uma solução pacífica para a questão etíope. Entretanto, o Duce considerou inaceitável a proposta de Eden e pouco depois da infeliz viagem deste a Roma, os resultados de uma "votação de paz" foram publicados na Grã-Bretanha. Esta indicava que a opinião pública, na Grã-Bretanha, era favorável à aplicação de sanções contra agressores. Isto colocou as coisas sob um luz diferente e o governo conservador britânico adotou uma política mais decidida para com a Itália. A nova atitude o ponto culminante a 20 de setembro, quando a Esquadra Britânica do Mediterrâneo foi reforçada.
Mas a ameaça subjacente nessa providência não impediu Mussolini de prosseguir nos preparativos para uma campanha terrestre na Etiópia (especialmente porque o Serviço de Inteligência Italiano (SIM) comunicou que a Esquadra Britânica do Mediterrâneo estava mal equipada). A uma enorme multidão reunida na Piazza Venezia ele bradou, a 8 de setembro: "E agora, no fim deste dia emocionante, chego às palavras que todos estão esperando ouvir: Vamos prosseguir". Para um jornalista britânico, dez dias mais tarde, ele arengou: "Temos um exército na África Oriental que nos custou dois bilhões de Liras. Você realmente acredita que gastamos essa soma agronômica a troco de nada? Estamos em marcha..." Entrementes, os jornais italianos rivalizavam na descrição dos etíopes como selvagens que haviam perdido o direito de existir como povo.
Aos olhos do mundo, a campanha iminente não era nada popular. Mas na Itália, a história era diferente. O aparecimento da Esquadra Britânica no Mediterrâneo e as sanções econômicas impostas pela Liga das Nações só haviam aumentado o entusiasmo do povo pela guerra. Como R. Zangrandi, escritor italiano cuja obra não se maculou com simpatias fascistas, escreveu em "Il longo viaggio attraverso il fascismo": "A grande maioria dos italianos, sobretudo a geração mais jovem, saudou o empreendimento colonial com sincero entusiasmo. Eles estavam lutando por um lugar ao sol, que as outras grandes potências haviam desfrutado durante anos ou séculos, e para um país pobre e superpopuloso como a Itália, a conquista da Etiópia representava empregos e um pedaço de terra para milhões de infelizes".
Treze anos de propaganda e doutrinação fascistas haviam deixado uma marca indelével em todos os italianos, especialmente na nova geração. Quando Mussolini fez sua declaração solene, sereia soaram, sinos de igreja repicaram por toda a Itália e a população foi tomada por forte fervor nacionalista. Aos gritos e vivas, muitos deles correram as ruas e praças, numa explosão de fervor patriótico só comparável às demonstrações feitas a César nos tempos do velho Império Romano. Os jovens soldados convocados que partiram da Itália desde 1935 acreditavam que saiam em defesa dos direitos da sua nação espezinhada e que partiam em missão civilizadora de uma país oprimido por um regime feudal.
Nessa época a canção mais popular era Faceta Nera, ela elucidava o espirito das ruas, aqui tem a canção com legendas em português.
Camponeses do sul da Itália acorreram à Etiópia, porque podiam ganhar 45 liras por dia - tanto quanto ganhavam em uma semana na Itália. Membros da hierarquia fascista foram despachados para África, a fim de conquistar fama e fortuna. Industriais apoiavam a campanha por causa dos lucros que prometiam. À parte os antifascistas que estavam exilados no exterior, nem um só italiano levantou a voz para denunciar a aventura de Mussolini. Até mesmo a atitude do Vaticano era ambígua. O Para Pio XII declarou em 28 de Agosto de 1935 que, "a própria ideia da guerra me é abominável..." Mas um bom número de prelados abençoou a guerra
O PONTO DE VISTA ETÍOPE
Quando John Melly, o médico missionário que morreria servindo Hailé Selassié, chegou a Adis Àbaba, em 1934, ficou horrorizado com o que viu. A capital era um amontoado de tukuls feitos de barro e caiados de branco, e umas poucas casas de alvenaria, em estilo oriental. Só havia um hotel passável, o "Imperial", e a única rua pavimentada era a que fora construída para a coroação do Negus. Não havia esgoto e o lixo era simplesmente jogado nas ruas, para servir de pastos aos abutres e corvos ou para ali apodrecer. De modo geral, essas mesmas condições eram também encontradas em outras partes da África, inclusive em regiões colonizadas pelos brancos. Qualquer observador objetivo seria forçado a admitir que a modernização da Etiópia, tarefa que Hailé Selassié tomou para si, parecia quase irrealizável, levando-se em conta a vastidão do país, a falta de estradas e comunicações e, sobretudo, a qualidade dos homens que detinham o poder, rases reacionários e ambiciosos.
Com tempo, não há dúvida de que o pequeno e enérgico imperador, com a vontade férrea de que nascera Ras Tafari, teria transformado e trazido seu pais para o século XX sem a ajuda dos italianos. Mas quando os italianos nas fronteiras começaram a dar os primeiros sinais de suas intenções, o Negus apenas começara seu programa de centralização e modernização. Em novembro de 1930, ele deu ao pais seu primeiro código penal, um ano depois sua primeira constituição escrita e o esboço dos planos de importantes reformas administrativas. Para executar-las, ele recorreu a ajuda de técnicos estrangeiros - Everett Colson, dos Estados Unidos, General Virgin da Suécia. Externamente as mudanças foram muitos lentas, quase imperceptíveis, porque Hailé Selassié era contrário a reformas repentinas e radicais. A Etiópia dizia ele, era como a Bela Adormecida, despertando após um sono de 2.000 anos.
Hailé Selassié não queria avassalar seu povo. Além disso, também tinha de enfrentar a influência reacionária do clero copia, que era avesso a qualquer mudança, além das pressões exercidas pelos Rases, que consideravam qualquer tipo de mudança uma ameaça direta a eles mesmos. Como lhe era impossível se livrar desses dois grupos de poder, sustentáculos tradicionais do trono, ele era obrigado a agir com muita cautela. Os propagandista italianos, com o intuito de minar a autoridade do Imperador e criar um clima de descontentamento no seio do povo, saíram a apregoar que os planos e medidas desenvolvimentistas, não se efetivariam porque o Imperador não passava de um títere de nobres ambiciosos. Mas foi basicamente por causa da escravatura que Hailé Selassié foi atacado. No começo dos anos 30, esse flagelo ainda era generalizado, acreditando-se haver mais de meio milhão de pessoas em cativeiro.
A tentativa de extirpar um mal profundamente arraigado nos costumes do pais não era nada fácil. Não obstante, quando ainda regente, o Negus tomara providências para abolir a escravatura. Em setembro de 1923, havia sido por ele promulgado um decreto transformando a compra e venda de escravos crime punido com a morte. Seis meses depois, ele tornou livre em decreto, os filhos nascidos de escravos a partir do momento da morte de seu senhor. Finalmente em 1934, o Imperador criara um departamento, em Adis Ábaba, incumbido da repressão da escravatura, dois anos mais tarde, 62 centros vinculados a esse departamento foram abertos no pais. Infelizmente, o resultado do trabalho desses centros foi insignificante e disso o governo italiano se valeu para conseguir uma vantagem quando a Liga das Nações após uma controvérsia franca com o Negus, decidiu em 22 de maio de 1935, publicar o último relatório secreto da Comissão Consultiva sobre Escravatura. Este relatório era particularmente severo com relação a Etiópia. Mas era claro como água que a satisfação italiana diante dessas revelações baseava-se no fato de lhe ser útil essa informação.
A partir de 1929, devidamente advertido de que a Itália estava mostrando cada vez mais claramente suas intenções, Hailé Selassié tomou certas precauções. Os etíopes que serviam nos Fuzileiros Africanos do Rei da Grã-Bretanha foram chamados de volta do Quênia, a Guarda Imperial estava sendo exercitada e instruída por Oficiais da Missão Militar Belga e o Imperador pedira ao General Virgin, que criasse uma academia militar para o treinamento de cadetes que formariam um quadro de oficiais do exército. Mas, à espera da guerra, o exército não tinha progredido muito, fato devidamente observado pelo Comando Supremo Italiano na África Oriental. Num manual (Commando Superiore A. O. Stato Maggiore, Ufficio informazioni, "Riservato". Eitópia Guida pratica per l'ufficiale destina-te in Africa Orientale), observou-se que pode-se ignorar tudo, exceto o elemento humano. O soldado etíope não precisa de muita coisa, é irredutível e zeloso de sua honra. Ele é um combatente tão fanático, que no calor da batalha ignora por completo a morte. Mas acontece que essa coragem desesperada de nada valeria contra a força de 10 divisões equipada, com armas modernas e comandadas por peritos em táticas modernas, apoiadas por excelente força aérea e artilharia, bem como por lanças-chamas e como se não bastasse tudo isso, gás.
![]() |
| Mapa da Etiópia com as possessões italianas antes da guerra |
"Nem sequer pensávamos em travar uma guerra no estilo europeu", disse Hailé Selassié posteriormente."Ademais, isto nos seria impossível, pois o que tínhamos de artilharia, mesmo de metralhadoras, era risível". Os italianos superestimaram na opinião dos etíopes, que ás vésperas das hostilidades, o inimigo tinha um exército de 350.000 homens (dos quais apenas um quarto chegara a ter algum treinamento militar) 400.000 fuzis, de todos os tipos e em toda sorte de condições, 200 peças de artilharia, antiquadas e montadas em reparos rígidos, cerca de 50 canhões antiaéreos leves e pesados, Orlikons, Schneiders e Vickers de .75mm, e um grupo de 3.000 carros blindados, Ford e Fiat. Os soldados regulares da Guarda Imperial estavam equipados com uniformes cáqui-esverdeados do exército belga, mas com bonés de fabricação japonesa, o resto dos soldados usava shamma branco (o manto de tecido de algodão etíope), alvo excelente para o tiro.
Ainda que seu exército fosse modesto e mal equipado, o Negus esperou até 28 de setembro para dar a ordem de mobilização. Ele não queria descartar-se da esperança de que o litígio fosse solucionado pacificamente e depositava na Liga das Nações a mesma fé patética que tinha comitês pró-Etiópia, criados no mundo inteiro como protesto contra a atitude beligerante da Itália. A maioria dos países europeus, exceto a Itália, tinha grupos de protestos ativos, o de Londres foi organizado por Sylvia Pankhurst, que se dedicava incansavelmente à causa do Imperador. Mas a indignação mais veemente, provocada pela atitude ameaçadora da Itália, partiu das cidades onde havia uma elite de africanos educados nos Estados Unidos, do Caribe e das capitais dos domínios britânicos na África. Para a gente de cor do mundo, a Etiópia era o ultimo baluarte livre da cultura africana, uma espécie de Sion negro, cuja independência tinha de ser mantida a qualquer preço. Na verdade, vários cultos semi-religiosos, haviam surgido nos anos 20, cujos seguidores reverenciavam Hailé Selassié e consideravam a Etiópia como a terra prometida. Esses cultos eram conhecidos como Etiopianismo ou tomavam o nome e título do Regente dai, os rastafários.
Mas todo o apoio vociferante dos amigos da Etiópia não podia deter a máquina bélica fascista, e relutante, Hailé Selassié reconheceu que a invasão italiana era inevitável. Sua tarefa seria então preparar o país para a luta que o aguardava. A 18 de julho, ele transmitiu pela única estação de rádio da Etiópia, instalada em Akaki, mensagem a seu povo, afirmando que jamais concordaria com a proposta transformação da Etiópia em protetorado italiano. A 12 de agosto o Negus tornou a falar a seus súditos "A Itália continua a despejar homens e armas na Eritreia e na Somália Italiana. O perigo de um conflito armado aumenta com o passar das horas".
A 15 de setembro, depois que a Itália recusou a proposta de solução pacífica apresentada pela Comissão dos Cinco da Liga das Nações, o Imperador voltou ao microfone "Hoje, quando ficou perfeitamente claro que o incidente de Wal Sal não oferece motivos para a guerra, a Itália, que tem sido abastecida de armas e munições por potências que as têm negado ao nosso pais, que jamais fabricou material bélico, e precisa desesperadamente dele para auto defesa, a Itália está procurando desacreditar nosso governo e nosso povo ao olhos do mundo, afirmando que somos selvagens e que é seu dever nos civilizar. A atitude que a Itália houve por bem assumir será julgada pela História". Dois dias depois, a Imperatriz Menen fez um apelo, através da rádio, às mulheres de todo os países, pedindo apoio: "As mulheres e mães da Itália estão tão angustiadas quanto as mulheres e mães da Etiópia, diante da agonia e sofrimento que a guerra lhes trará. Mulheres do mundo, uni-vos! Exijam, a uma só voz, que nos poupem o horror do derramamento inútil de sangue".
Na Itália, as bandeiras dos regimentos estavam sendo abençoadas com "agua benta do Piave" - O Piave representa para a Itália o que Verdum havia sido para a França - e introduzia-se uma sábado fascista para intensificar o fervor patriótico. As transmissões radiofônicas do Imperador tiveram idêntico efeito sobre os etíopes, ocorrendo uma orgia de discursos e demonstrações patrióticas. Em Harpar, Waizero Dama Ababath Charkoze, filha de rico latifundiário, organizou um batalhão da morte e foi fotografada, em uniforme apertando um fuzil ao peito. Outra Waizero disse ao correspondente do jornal inglês Daily Express, em Adis Ábaba, que recrutara uma legião de Amazonas que já contavam com 3.000 recrutas.
Uma mulher idosa e inflexível, Ferlenek, que 40 anos antes combatera os italianos em Adowa, posou para as câmeras da imprensa apontando um revolver para um inimigo invisível. A 25 de setembro dissipou-se temporariamente a febra da guerra: os leões do imperador ( um dos títulos do Negus era Leão de Judá) fugiram das jaulas e o povo em pânico, saiu correndo em busca de abrigo. Mas assim que souberam que o último dos animais fora morto pela Guarda Imperial, todos retornaram as demonstrações quando o tambor-mor, Belo Abaka - um gigante de mais de dois metros de altura - desfilou com a banda imperial, manipulando o seu coribântico bastão com extrema perícia. A 27 de setembro houve a festa de Masakl, celebração religiosa que marca o fim da estação chuvosa na Etiópia. Após a cerimônia realizada na Catedral de São Jorge, o Imperador sentou-se num magnífico pavilhão, erguido especialmente para ocasião na praça da Catedral. Dirigida por um veterano de Adowa, cujas demonstrações pretendiam recordar os feitos heróicos do passado da Abissínia, houve um desfile militar perante o Negus. Os três pequeninos e antiquados aviões que constituíam a força aérea do Imperador sobrevoaram o local.
A guerra começaria dali a cinco dias, e nesses últimos dias de paz, os estadistas dos cinco continentes não pensaram, nem falaram de outra coisa senão no choque iminente. Intuitivamente, compreendiam que o conflito ítalo-etíope seria o prólogo de uma segunda guerra mundial. Na Grã-Bretanha, 3.000 jovens apresentaram-se como voluntários para lutar por Hailé Selassié. Em Nova York, 9.000 americanos, brancos e pretos, fizeram um comício no Madson Square Garden e reduziram uma enorme efígie de Mussolini a pedaços. Em Berlim, os cinemas apresentavam "Etiópia, 1935" um filme que mostrava um tema antiitaliano, enquanto quem em Londres, longas filas se formavam an Conventry Street para ver "A verdade sobre a Abissínia", no Rialto. No Cairo, o muezim chamava os fiéis à oração para que Alá poupasse a Etiópia, astrólogos e videntes previam, à unanimidade, que a Itália venceria a guerra, e um deles declarou que poder algum na terra poderia impedir a guerra, por que estava prevista na Bíblia, em Isaias, Habacuque e Zacarias.
Aliás, as 18h45 de 2 outubro, as últimas esperanças de paz ruíram por terra. Da sacada do Palazzo Venezia, Mussolini falou à grande multidão chamada à praça pelas sereias e pelo repicar dos sinos "Neste momento, 40 milhões de italianos se reúnem nas praças de todas as cidades, aldeias e vilarejos. Nunca, na história da humanidade, se viu tão grandioso espetáculo". Era o fim da paz. Depois da Etiópia, viria a guerra da Espanha, a guerra da Polônia. Dai por diante, toda a Europa, dos Urais aos Pirineus, estaria em chamas.
A GUERRA DE DE BONO
Ao meio-dia de 2 de outubro de 1935, Mussolini apareceu na sacada do Palazzo Venezia e disse ao mundo que a paciência da Itália com a Etiópia se esgotara. Sete horas antes desse anúncio fatídico, o General Emilio de Bono, saíra do suntuoso palácio do Governador-Geral de Asmara, dirigindo-se, de carro, à pequenina aldeia eritreias de Coatit. Ali, a poucos quilômetros do lento e lodoso rio Mareb, que delineava a fronteira etíope, montara-se um agrupamento de barracas que serviriam como QG tático do Comandante do Exército. Três Corpos do exército aguardavam a ordem de cruzar o Mareb e penetrar na Etiópia. De Bono deveria dá-la às primeira horas de 3 de outubro. Mas antes mesmo que De Bono chegasse a Coatit, o Imperador Hailé Selassié, em Adis Ababa, telegrafava ao Secretário-Geral da Liga das Nações reclamando que tropas italianas já haviam violado a fronteira Etíope. Além disso, ele mandara que o Das Seyoum, comandante do Exército Tigre Etíope, se afastasse a um dia de marcha do Rio Mareb antes que os italianos o cruzassem. O Negus estava decidido a mostrar ao mundo que era o agressor.
Embora o Mareb tivesse status de rio, aquele filete de água, que corre entre colinas nuas, não pode ser classificado de obstáculo. Mas para 100.000 homens que o alcançaram pouco depois que De Bono deu a ordem, ele tinha um significação vergonhosa. Esta era a fronteira imposta por Menelik depois da arrasadora derrota imposta ao italianos em Adowa. Assim, para o jovens recrutas italianos - os mais velhos era da classe de 1919 - a travessia do Mareb tinha uma significação simbólica. Eles estavam vingando os mortos de Adowa, desafiando as potências coloniais cujos governos se opunham à guerra, e mostrando ao mundo que uma nova geração de italianos era formada de soldados tão bons quanto os antigos legionários romanos.
Precisamente às 05h, três colunas de De Bono atravessaram o Mareb, numa frente de 64 km. À direita, o II Corpo de Exércitos, sob o comando do General Pietro Maravigna, começou a avançar sobre Adowa. No centro, o Corpo Eritreu, do General Pirzio Biroli, deslocou-se para as montanhas de Enticho.
À esquerda, o I Corpo de Exércitos, comandado pelo General Ruggero Santini, tinha Adrigrat como objetivo. Cada homem recebera 110 cartuchos de munição, rações para quatro dias e dois litros de água. Quando o sol nascia, as três colunas avançavam para a Etiópia, bandeiras desfraldadas e clarinadas triunfais. Emocionados com o delírios dos italianos, alguns áskaris eritreus descarregaram seus fuzis para o alto. Durante o primeiro dia da guerra, nenhum outro tiro rompeu-lhe a total tranquilidade.
Nesse estágio da campanha, uma vez cruzado o Mareb, só havia uma deficiência. Os italianos tinham construído estradas até a fronteira, do seu lado do rio. Mas no território etíope, só existiam trilhas mal definidas e as rodas eram inúteis dali por diante os soldados do Duce teriam que marchar.
No segundo dia, essa colunas ainda marchavam, sem encontrar qualquer resistência. Selassié decidira demonstrar fidelidade às condições que lhe haviam sido impostas pela Liga das Nações. Com isso, punha-se também em harmonia com a costumeira tática etíope de atrair o inimigo bem para dentro do território, para afastá-lo bastante de suas linhas de abastecimento, antes de atacar. O Ras Gugsa e o Ras Seyoum, comandantes das forças etíopes, comandantes da forças etíopes da área, receberam ordens de estabelecer uma linha defensiva entre 56 e 88 km da fronteira. Como isto representava o abandono de Adowa, alguns etíopes tradicionalistas ressentiram-se da ordem de retirada. Mas Selassié estava decidido a respeitar a zona de neutra de 40 km, fixada pela Liga das Nações.









